Sobre Istanbul, você e eu.

Estou aqui na Turquia e mesmo aqui poucos sabem o que acontece em Istanbul já que os meios de comunicação nada divulgam sobre o caso do parque Gezi. Aliás é muito maior que isso, mas vou explicar de uma forma didática que vai além do parque em si.

Imagine Istanbul. Uma cidade milenar: Constantinopla. Pois bem.
Conhecida como o ponto de comércio de vários períodos de nossa história continua parecida, tem tudo de todo lugar, ainda tem o estreito de Bósforo ligando o mediterrâneo ao negro, e a própria cidade se divide entre Europa e Ásia, cristãos e muçulmanos, antigo e o novo.

Carregada de tudo isso, imagine São Paulo, caótica como só ela: trânsito para todo lado, então acrescente pelo menos uma 25 de março, com a Sta. Efigênia e a Al. Porto Geral. 1 por bairro, em um espaço do tamanho da zona oeste.

Dentro desse panorama imagine que o único refugio verde é o Ibirapuera, mas do tamanho da praça do pôr do sol.

Uma cidade que deu as costas para seus habitantes, que favorece o turismo e o acesso estrangeiro visando lucro e em troca tira qualquer ação democrática por meio de violência.

Ou seja: aconteceu um basta da população que não agüenta mais o seu líder, que há 10 anos leva a nação com rigidez sem nenhuma aprovação da própria população.

O que aconteceu não foi por um parque, foi maior, foi pela ideologia de um povo rico, plural e muito participativo.

O que aconteceu foi um exemplo para nós brasileiros, foi voz, em alto e bom tom. Foi um basta.

Árvores quando arrancadas morrem, mas foi algo transformador ver pessoas nas ruas gritando, e, em troca de gás lacrimogêneo, jatos de água e spray de pimenta. As pessoas davam comida aos policiais, que sem entender respondiam com mais violência.

É transformador saber que árvores atacadas morrem, ou demoram a crescer.

Ideologia é instantânea: quando atacada vira uma nuvem, difícil de dissipar, impossível de conter. Entra pelas brechas, alimenta o pulmão de quem nem sabia o que era o Gezi. Me alimentou.

Suporte o movimento democrático e pacifico dos cidadãos turcos, não acredite em extremistas, não há.
Cobre seu governo também, antes que seja tarde demais e nossa voz sofra o mesmo que os turcos, porque eu experimentei, e gritar com gás lacrimogêneo na garganta não é fácil, mas precisa ser feito.